O Muro de Vidro — Aarão Ferreira
Luanda · Angola · 1975–2002
Uma história de resistência silenciosa
O Muro de Vidro
A História de Nzinga
Aarão Ferreira
Edifício Esmeralda · Apartamento 402
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Prefácio

Há histórias que não cabem nos livros de história. Ficam guardadas nas paredes descascadas, no cheiro a carvão misturado com cal, no eco de um choro de bebé atravessando betão colonial. Esta é uma dessas histórias.


Nzinga não fugiu. Não declarou guerra. Não discursou nem marchou. A sua resistência foi feita de silêncio estratégico, de batatas brotadas, de três toques numa parede partilhada. Em meio às turbulências de Angola, entre 1975 e 2002, o Edifício Esmeralda em Luanda tornou-se o palco de uma resistência silenciosa e poderosa — e o apartamento 402 transformou-se no único país onde ela escolheu viver.


O que se segue não é uma história sobre a guerra. É uma história sobre o que sobrevive dentro de nós quando tudo lá fora desmorona.

Sumário
Capítulo I
O Último Clique

A chave era pesada. Feita de um latão que o tempo já tinha transformado num dourado opaco e cansado, com a cor de coisa que já viveu demais — igual a certas pessoas que Luanda teima em guardar. Naquele 11 de Novembro de 1975, a chave parecia pesar mais do que o próprio corpo de Nzinga. Ela a segurava com as duas mãos, como quem segura um bebé, ou um testamento.

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Ilustração — Nzinga segura a chave de latão no corredor do 402

Lá fora, a cidade esfacelava-se em festa e em medo. Buzinas de candongueiros cortavam o ar carregado de fumo de pneu queimado. Foguetes — ou talvez tiros, era difícil distinguir na fúria daquele dia — estouravam na Baixa e ecoavam até Maianga. Angola era independente desde as seis da manhã. Angola era livre. Mas Nzinga sabia, com essa certeza que vive no fundo do estômago, que liberdade proclamada não é o mesmo que liberdade vivida. Havia guerras a começar enquanto os discursos ainda não tinham acabado.

Nzinga segurando a chave cap1
Nzinga no corredor do Edifício Esmeralda — 11 de Novembro, 1975

Ela estava parada no corredor do quarto andar do Edifício Esmeralda, um monstro de betão colonial pintado de um verde-alface desbotado no centro de Luanda. O corredor cheirava ao costume: a humidade de paredes que viram muita chuva, a óleo de cozinha das outras portas, ao perfume de liamba que algum vizinho acendia ao fim da tarde. Agora o corredor estava vazio. Os outros tinham fugido — para Portugal, para o Alentejo e para o Algarve com malas com o que cabiam e caixas com o que restava, levando consigo a mesa da sala, o bule de prata, os retratos de casamento. Tinham levado a vida e deixado os seus fantasmas.

Nzinga olhou para a porta de madeira maciça do seu apartamento. Era a porta 402. Não era uma porta extraordinária. Era uma porta simples, de madeira escura, com a tinta a lascar nas quinas, uma pequena cicatriz no canto esquerdo onde uma mudança antiga tinha arranhado. Do lado de dentro, ficavam as suas memórias — os cadernos da escola, a fotografia da mãe no mercado do Kinaxixi, o pano de caça herdado da avó. Do lado de fora, ficava a história em movimento, barulhenta e irreversível.

Ela colocou a chave na fechadura.

Primeiro clique.

Segundo clique.

O som ecoou pelo corredor vazio com uma clareza que nunca teria existido se os vizinhos ainda estivessem ali. Era o som mais alto que Luanda lhe permitia naquele momento — mais alto do que as declarações de independência, mais alto do que os foguetes. Ela não estava apenas a fechar uma porta. Estava a traçar uma linha no chão do tempo.

Guardou a chave na dobra do pano. Sentou-se no chão do corredor, de costas para a porta, e ficou a escutar a cidade a arder. E escolheu ficar.

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Capítulo II
A Dieta das Coisas

Nos primeiros meses, o tempo não se contava por dias, mas por sons. Havia o som metálico dos tanques a dobrarem a esquina da Rua Direita, pesados como elefantes de ferro. Havia o som seco das granadas no horizonte, tão regular que já não assustava — era quase meteorológico. Havia o silêncio que vinha depois dos tiros, o silêncio específico de quando as pessoas fecham a boca e o coração ao mesmo tempo.

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Ilustração — A horta vertical, o jardim secreto de Luanda

Mas, dentro do 402, Nzinga estabeleceu a sua própria cronologia. O tempo dela contava-se de outra forma: pelo primeiro broto verde que rasgou a terra de uma batata esquecida numa caixa de sapatos; pelo dia em que a torneira deixou de dar água e ela aprendeu a colher chuva com as alguidares; pelo momento em que o último quilo de fuba se esgotou e ela descobriu que as folhas de batata-doce eram comestíveis, com um amargo que ensinava humildade.

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A horta vertical do 402 — onde o sol batia, Nzinga plantava

A horta vertical que começara com uma batata brotada expandiu-se para todos os cantos onde o sol batia. Nzinga descobriu que janelas do lado nascente tinham três horas de sol direto. Bastava isso. Colocou latas de conserva com terra, garrafas de plástico cortadas ao meio, caixotes de madeira que tinha pedido emprestados aos andares abandonados. O apartamento foi-se tornando, aos poucos, num jardim suspenso dentro de um prédio de guerra.

Ela aprendeu a ler as nuvens de Luanda para colher água da chuva, que tinha sabor a terra e a liberdade. Aprendeu que as formigas vermelhas eram um sinal de que o solo estava saudável. Aprendeu que as plantas, como as pessoas, precisam de ser faladas — não de palavras bonitas, mas de palavras verdadeiras. Ela falava com as suas plantas em quimbundo, a língua da mãe, que tinha passado anos arrumada num gaveta da memória porque em Luanda colonial não se falava quimbundo em público.

O mundo lá fora arde, mas aqui dentro a sombra é fresca.

Foi assim que escreveu na parede, com um pedaço de carvão, quando o último caderno de notas ficou cheio. Não havia mais papel. Mas havia paredes. E as paredes, compreendeu ela, são o papel de quem ficou sem escolha — ou de quem escolheu ficar.

O apartamento 402 tinha quatro paredes no quarto, três na sala, duas no corredor. Isso era espaço suficiente para escrever uma vida inteira.

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Capítulo III
Vozes Através da Parede

Os anos em Luanda acumulavam-se como a poeira vermelha que entrava pela janela e se depositava em tudo — nos cadernos, nas folhas das plantas, no rosto de Nzinga, que já tinha mais idade do que o país que a rodeava. O prédio, antes um reduto de silêncio colonial com os seus moradores de pele clara e rotinas europeias, fora agora ocupado por famílias que vinham do interior, fugindo dos combates do Huambo, do Moxico, do Cuando-Cubango. Chegavam com poucas malas e muita vida.

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Ilustração — Nzinga escuta as vozes através da parede

Nzinga tornou-se uma especialista em acústica. Aprendeu que a parede da direita conduzia melhor o som do que a parede da esquerda. Que o betonilha fino transmitia conversas quase completas enquanto o betão armado as filtrava como um coador de café, deixando passar apenas as emoções — a risada, o choro, o barulho seco de quem bate na mesa com o punho quando a discussão aquece.

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A parede como membrana entre solidão e comunidade

Através da parede da direita, ela ouvia o riso das crianças do 401 — dois rapazinhos e uma rapariga pequena chamada Esperança, que tinha aprendido a andar dentro do apartamento e já corria pelos corredores aos gritos de alegria como se o mundo não tivesse buracos de morteiro nas fachadas. Ela ouvia o som rítmico do pilão da mãe dessas crianças, que socava funji ao fim do dia com uma cadência que era quase música — uma música sem nome mas com memória.

Nzinga não abria a porta. Mas também não se fechou. A sua presença era outra coisa, mais subtil: um cheiro a ervas que escapava por baixo da porta, o vapor da horta que umedecia o corredor nas manhãs de chuva. Os vizinhos sabiam que havia alguém no 402. Não sabiam quem. Às vezes, a rapariga Esperança parava em frente à porta e ficava a olhar para ela como se esperasse que se abrisse. Depois ia embora.

Certa noite, um choro de bebé atravessou a parede. Não era o choro da fome nem o da cólica — era o choro do medo, esse som específico que até as crianças que ainda não falam encontram quando o ar muda de qualidade. Lá fora, havia tiros mais próximos do que o habitual. Nzinga sentiu o impulso antigo de abrir a porta, de atravessar o corredor, de bater naquela outra porta e dizer: Estou aqui. Não estás sozinha.

Recuou. A mão caiu do lado.

Em vez disso, encostou a palma da mão à parede e deu três toques leves, com os nós dos dedos:

Toc…   toc-toc.

Houve um silêncio. O bebé parou de chorar por um momento. E do outro lado da parede, vieram dois toques curtos: toc-toc.

Uma comunicação sem palavras. Uma conversa feita apenas de presença. Nzinga ficou ali com a mão na parede até o bebé adormecer, e depois foi deitar-se. O seu apartamento não era uma ilha deserta. Era uma célula num corpo maior — o corpo daquele prédio ferido, daquele bairro em chamas, daquela cidade que teimava em não morrer.

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Capítulo IV
O Visitante Inesperado

A década de noventa trouxe consigo a chamada "Guerra dos 55 Dias" — aquele momento de 1992 em que as eleições terminaram e a guerra recomeçou com uma raiva que a paz tinha represado durante dois anos. Luanda sangrou de forma diferente dessa vez: mais urbana, mais íntima, porta a porta e rua a rua. O Edifício Esmeralda exibia agora cicatrizes profundas nas suas paredes verdes — marcas de estilhaços que pareciam pontuação numa frase que ninguém queria ler.

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Ilustração — Tiago e Nzinga na varanda, ao pôr do sol

Nzinga já não sabia com certeza quanto tempo tinha passado. As marcas na parede chegavam a uma contagem que ela tinha parado de fazer porque os números começavam a pesar. Sabia que tinha cabelos brancos — viu o reflexo numa janela certa manhã e não se reconheceu de imediato. Sabia que as plantas do lado nascente cresciam melhor do que as do lado sul. Sabia que o sapato esquerdo tinha começado a apertar onde antes não apertava.

Foi numa manhã de céu cor de chumbo que um som novo veio da varanda. Não era o vento. Não era um pássaro. Era o som de peso humano a escalar betão — o raspar de ténis velhos contra a parede exterior, o resfolegar de alguém que sobe a sério.

Uma mão pequena, de dedos negros de óleo e arranhões, agarrou o parapeito da varanda. E depois apareceu o resto: um rapaz de doze anos, talvez treze, com olhos grandes num rosto magro que tinha a expressão específica de quem acabou de correr da morte e ainda não tinha a certeza de ter chegado suficientemente longe.

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Tiago entrou rolando, fugindo dos tiros — o mundo não bateu à porta

O rapaz entrou rolando pela varanda, caiu sobre um joelho, olhou para cima — e ficou petrificado.

Nzinga estava de pé à porta da varanda, com os cabelos brancos soltos até os ombros, o pano de capulana cor de barro enrolado na cintura, a parede atrás dela coberta de escrita de carvão do chão até ao teto. No meio da sala, penduradas de fios de sisal, havia garrafas com plantas, peças de relógio que ela usava para contar horas pela posição do ponteiro grande, um mapa de Angola feito com traços de giz que ela tinha refeito dez vezes.

Nzinga olhou para ele durante um longo momento. Depois sentou-se na cadeira de vime que tinha junto à janela e disse:

O rapaz chamava-se Tiago. Era um apanhador de sucata, desses miúdos que conheciam Luanda melhor do que qualquer general ou diplomata — pelas bombas de água secas, pelas filas de distribuição de farinha, pelos atalhos entre os edifícios que nenhum mapa mostrava. Carregava numa mochila rasgada peças de rádio, relógios quebrados, fios de cobre, um ímã e duas pilhas que ainda tinham alguma vida. Vendia isto tudo no mercado informal da Ilha, onde o preço das coisas mudava conforme os tiros do dia anterior.

O isolamento absoluto tinha acabado. O mundo não tinha batido à porta. Tinha escalado as paredes.

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Capítulo V
A Parede-Livro

Tiago voltou. Ninguém o mandou, ninguém o convidou formalmente — ele apareceu na varanda três dias depois com uma manga e um pedaço de pão de milho que cheirava a real, embrulhado num jornal velho com manchetes de um mundo que Nzinga já não reconhecia. Ela aceitou o pão sem dizer nada e deu-lhe em troca um punhado de tomates da horta, pequenos e vermelhos como rubis tortos.

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Ilustração — A parede-livro, o apartamento-cérebro

Assim começou a troca. Tiago trazia coisas de fora: notícias, fragmentos, objetos — às vezes uma borracha nova, às vezes um saco de amendoins, uma vez um livro de matemática que tinha encontrado numa casa abandonada em Miramar. E Nzinga dava-lhe da horta, e palavras, e a sensação de que havia uma pessoa no mundo que o ouvia com atenção completa.

Com a regular presença de Tiago, o silêncio dentro do 402 mudou de textura. Nzinga começou a escrever sobre o presente que não via mas que o rapaz lhe trazia nos bolsos e nas histórias. Se Tiago dizia que tinha visto um carro da Cruz Vermelha no Largo do Kinaxixi, ela escrevia na parede: "A Cruz Vermelha passou — o mundo ainda se envergonha um pouco." Se dizia que a padaria da Maianga tinha reaberto com pão de mandioca, ela escrevia: "O pão voltou. As coisas voltam se lhes deres tempo."

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O apartamento tornara-se um arquivo vivo — o teto coberto de árvore genealógica imaginária

O apartamento transformou-se num arquivo vivo. O teto estava coberto por uma árvore genealógica imaginária de todos os vizinhos que ela tinha conhecido pela voz e pelos sons — os do 401, os do 403, os do terceiro andar que tocavam música aos domingos. Ela não sabia os nomes deles, mas sabia os seus ritmos, os seus choros, os seus risos. Deu-lhes nomes inventados: a Pilão, o Grave, as Três Meninas, o Rádio. No teto, as suas histórias cruzavam-se em ramos de carvão.

Tiago olhava para aquilo tudo com os olhos arregalados de quem visita um museu que ainda não tem nome.

Certo dia, Tiago trouxe um rádio de transístores, pequeno e cor de cinza, com uma antena dobrada que ainda assim captava a Rádio Nacional. Colocou-o na mesa e disse, com o orgulho concreto de quem dá o melhor presente que consegue:

Nzinga pegou no rádio, sentiu o peso dele, virou-o nas mãos. Depois colocou-o de volta na mesa, sem ligar.

Nessa tarde, ela pegou num pedaço de carvão novo — o último que tinha — e escreveu na parede que estava mais limpa, a do corredor junto à porta que nunca abria:

A liberdade não é a ausência de muros. É a capacidade de escolher quais as paredes onde queremos escrever a nossa verdade.

Tiago leu em voz alta, com os lábios a mexer sobre cada palavra. Depois ficou em silêncio. Depois disse apenas:

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Capítulo VI
A Luz que Cega

O ano era 2002. A palavra que corria pelas ruas, pelas filas de água, pelos mercados de rua e pelos corredores dos prédios era uma única e improvável palavra: Paz. Vinte e sete anos de guerra civil tinham terminado com a morte de Jonas Savimbi em Fevereiro, numa emboscada algures no Moxico. Angola acordou num silêncio diferente — não o silêncio do medo, mas o silêncio atordoado de quem acaba de parar de correr e não sabe bem o que fazer com as pernas paradas.

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Ilustração — Nzinga contempla Luanda em paz, 2002

Nzinga ouviu. O rádio de Tiago estava ligado pela primeira vez, a Rádio Nacional a transmitir os acordos de Luena. Ela ficou sentada na cadeira de vime, com as mãos no colo, a escutar. Depois levantou-se, foi à janela, e olhou para as persianas fechadas. Havia quanto tempo não as abria? Não sabia. Anos, talvez. A luz entrava pelas frinchas em raios de pó dourado, como sempre.

Três batidas soaram na porta principal. Não dois toques pela parede. Três batidas na porta — o som direto, sem intermediários, sem acústica partilhada.

Nzinga ficou imóvel. O coração foi à frente.

— Madrinha — disse a voz do outro lado. — Sou eu.

Era Tiago. Mas não era o Tiago de doze anos com a mochila de sucata. Era um homem de vinte e poucos, com a voz assentada e os passos pesados, que tinha crescido enquanto Luanda crescia à volta dele. Nzinga reconheceu a voz antes de reconhecer o som dos passos.

Ela foi até à porta. Pôs a mão na maçaneta. Sentiu o metal frio, que já estava quase esquecido. Procurou a chave de latão na dobra do pano — estava lá, no mesmo sítio de sempre, pesada como no primeiro dia.

Forçou um pouco. A fechadura estava enferrujada de anos parada. Mas cedeu.

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Luanda, 2002 — a cidade mudou, mas o cheiro de terra quente e mar salgado era o mesmo

A porta abriu-se e a luz inundou o apartamento-cérebro. Não foi uma abertura gradual — foi uma inundação, uma entrada violenta e generosa de sol de Angola, esse sol que não pede licença nem espera convite. Nzinga fechou os olhos. O calor bateu-lhe no rosto como uma mão espalmada e gentil.

Tiago entrou devagar, olhando para as paredes com a expressão de quem visita um lugar sagrado. Passou os dedos sobre as letras de carvão sem as tocar. Parou diante da árvore genealógica no teto. Virou-se para ela com os olhos brilhantes.

Tiago levou-a até à varanda e abriu as persianas de par em par com um gesto largo, de quem devolve algo que foi guardado demasiado tempo. O sol de Luanda entrou como uma inundação. A cidade tinha mudado — havia gruas no horizonte, novos edifícios a subirem onde antes havia ruínas, os muros pintados com publicidade colorida onde antes havia buracos de projéteis. Mas o cheiro era o mesmo: terra vermelha aquecida, sal do mar, fumo de lenha da quizomba, capim queimado ao longe.

Nzinga ficou na varanda por um longo tempo, de mãos no parapeito, a olhar para a cidade que ela tinha amado à distância durante décadas. Depois entrou, pegou no último pedaço de carvão que guardava para uma ocasião que ainda não sabia qual era, e escreveu na última parede limpa que restava — a parede que ficava mesmo por cima da porta que tinha estado fechada todos aqueles anos:

A memória é o único país de onde não podemos ser expulsos.

Depois colocou o carvão no chão. Voltou à varanda. E ficou ali, com Tiago ao lado, a ver Luanda respirar de um fôlego diferente.

A porta do 402 nunca mais foi trancada.

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FIM
"A memória é o único país de onde não podemos ser expulsos."

— Nzinga, Apartamento 402, Edifício Esmeralda, Luanda
SOBRE O AUTOR
Aarão Ferreira

Escritor angolano. As suas histórias nascem do chão vermelho de Luanda, das vozes que ficaram quando os outros partiram, e da memória que nenhuma guerra consegue apagar.

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